CAOS ORTOGRÁFICO
É caso para dizer "O que torto nasce tarde ou nunca se endireita"
34 anos depois - um pequeno apontamento
Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AO90) - 12 de Outubro de 1990 e assinado em Lisboa a 16 de Dezembro de 1990 por representantes de 7 países lusófonos: Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.
Timor-Leste aderiu ao Acordo em 2004 após a independência.
Os arautos deste "acordo" pretendiam a unidade ortográfica para a Comunidade Lusófona mas na realidade criaram-se 3 normas: a do Brasil, a de Portugal e a dos outros países da Lusofonia isto apesar de todos eles terem assinado o Acordo do desacordo (claro).
Realmente longe vai o consenso entre académicos, linguistas, escritores e até políticos que cada vez estão mais em Desacordo ... também longe vai o tempo em que o nosso vocabulário tinha como base o latim e o grego sem esquecer os vocábulos deixados pelos árabes entre 711-1249 nos mais variados campos: Arquitectura; área Administrativa, Medicina; Reino Vegetal, Técnicas Agrícolas e de Irrigação. Reino Animal, Navegação. Toponímia, etc. (1)
Na Idade Média a escrita era sobretudo fonética. os escribas registavam por escrito os sons que ouviam.
Depois os letrados do Renascimento recorreram ao latim e ao grego para dar regras
Breve historial
No Séc XII - quando Portugal nasceu - os escribas faziam a documentação do reino em Latim, muito embora o povo Galego, Português e Leonês já comunicassem numa linguagem que poderemos chamar galaico-portuguesa com raízes no latim vulgar trazido pelos soldados romanos.
1290 - Dom Dinis decreta que o galego-português passe ser usado em vez do latim.
1536 - Publica-se a primeira gramática de Língua Portuguesa por Fernão de Oliveira, presbítero e professor de retórica em Coimbra. Reinado D João III.
1911 - Com a República e o Acordo de 1911 a escrita sofreu grande transformação.
1945 - Novo Acordo Ortográfico curiosamente também aprovado no Brasil mas logo a seguir revogado.
Na década de 70 e 80 novas divergências.
1990 o Acordo actual multiplica as divergências com o aparecimento de 3 novos/velhos falantes : Portugueses, Brasileiros e Luso-Africanos.
Os letrados de 1990 para modernizar (') inventaram:
Regra gráfica
Letra que não se ouve não se escreve. (às vezes)
“conceção” por “concepção”
“receção” por “recepção”,
“espetador” por “espectador” grafia dupla esta queda do "c" tem mesmo graça....
"fato" por "facto" dupla grafia do lado de lá do Atlântico.
"Egito" por "Egipto" mas esqueceram-se de actualizar o corte para identificar os naturais continuam a ser egípcios em vez de egítios!
Já na decapitação que se fez nas sequências interiores do tipo "mtp" Ex, peremptório > perentório o "m" foi travestido para "n" e bem, claro.
O "h" como consoante muda foi mandada às urtigas, no entanto não foi regra geral e o fidalgo do verbo haver segurou o "h"
É claro que apesar de todas as polémicas e mais uma não esquecer que o português enquanto língua viva está em constantes mudanças e o NAO até acrescentou 3 letras: K W Y
Para abreviaturas do tipo Kg, km, vá que não vá, agora para vocábulos do tipo Kichute mais valia continuar a jogar descalço, bem como ter substituído as maiúsculas dos dias da semana, meses, estações do ano e pontos cardeais e bem melhor fariam se tivessem ficado mudos e quedos como os penedos.
Em muitos capítulos, este AO90 faz-me lembrar o "expert" que queria matar a sede com água salgada.
Também muitos esquecem que o AO tem apenas 3 sócios: Portugal, Cabo Verde e Brasil e este último até com dupla grafia
Esta é mais uma das razões porque continuo a escreve segundo o Acordo de 1945.
Claro que já poucos se lembram que dois protocolos já vieram em socorro dos autores originais a modificar o acordo inicial, um em 1998 e outro em 2004 e até na Assembleia da República (2014) foi apresentada uma petição para discutir a anulação do AO90.
O governo como resposta recomendou a criação de um grupo de trabalho. como é habitual quando não quer mexer nas coisas.
A famosa Base Fonética mandada às urtigas
com o esquecimento de cortar o "h" mudo em vocábulos como:
hoje - não fosse o dia emigrar para oje
hotel - para otel
haver - para aver entre muitos outros desprezíveis "agas" mudos!
óptica (olhos) cortou o h -ótica- invadiu e confundiu os otorrinos (ouvidos)
e nem vale a pena o vocábulo "facto" que no Brasil se grafa "fato" para se manter decentemente vestido.
O uso do hífen é o outra incoerência.
Regista cor-de-rosa mas para a laranja é cor de laranja
... até nestas formas do verbo haver: hei-de, hás-de, há-de e hão-de ... furtaram o hífen ... a vá lá, vá lá que deixaram em paz o h mudo!!!
Com o pára e o para a confusão é total como por exemplo "alto e para o baile" - "greve para a escola"
34 anos depois não será tempo suficiente para corrigir o que há a corrigir?
Engraçado...engraçado foi terem acrescentado 3 letras K W Y e para compensar retiraram as maiúsculas aos dias da semana, dos meses, das estações do ano e dos pontos cardeais... já os nomes dos livros são a confusão total.
Com alguma graça um jovem estudante argumentou com o seu professor de Filologia que os naturais do Egito não se poderiam chamar egitios sob pena dos naturais de Marrocos passarem a marrecos muito embora os naturais da Suécia não se importarem de ser suecos.
... e termino a "palavrar" sim porque "a orthographia também é gente sem ípsilon"
Bernardo Soares
"A minha Pátria é a Língua Portuguesa"
Fernando Pessoa
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(1) - Herança ocorre pela presença do povo árabe por cinco séculos em Portugal (711-1249) e sete na Península Ibérica (711-1492)
VIAGEM NO TEMPO
Toponímia Algarvia de origem árabe: Albufeira, Alcantarilha, Alcaria, Algarve, Algoz, Aljezur, Almancil, Bensafrim, Cacela, Faro, Loulé, Marachique, Odeceixe, Odiáxere, Olhão. São Brás de Alportel, Tavira, Tunes.
Palavras portuguesas de origem árabe mais curiosas
Fulān: Fulano
Laimun: Limão
Az-zaᶜfarān: Açafrão
šiṭranj: Xadrez
Alkohul: Álcool
Nāranj: Laranja
Al-khaç: Alface
Karafâ: Garrafa
Lāzaward: Azul
Sharab: Xarope
Aliklil: Alecrim
Alkataia: Alcateia
Sihrīj: Chafariz
As-sūq: Açougue
Qahwa: Café
Miṭraqah: Matraca
Al-khayyât: Alfaiate


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